Imobiliária devedora de
IPTU quer despejar 700 famílias em Carapicuíba
Mais 700 famílias podem
ficar sem moradia em um despejo marcado para o dia 6 de março em Carapicuíba,
em São Paulo. A ação de reintegração de posse, marcada para às 6 horas, pode
dar vitória à empresa Savoy Imobiliária Construtora na disputa do terreno de 66
mil metros quadrados. A empresa ficou marcada na CPI do IPTU, realizada em 2009
pela Câmara dos Vereadores de São Paulo, por ser o maior grupo devedor de IPTU
(Imposto Predial e Territorial Urbano) da cidade, e provavelmente do Brasil.
p
class="texto">A Favela do Savoy – que adotou o nome da empresa -
já vive essa briga pela posse do local desde 2005, dois anos depois que as
pessoas iniciaram a ocupação. Mas desta vez o prazo apertou e os moradores, que
receberam no dia 25 de janeiro o aviso de reintegração, buscam acreditar nas
promessas que lhes são feitas.
Segundo Tião, que mora lá,
as famílias passaram a ter esperanças nas palavras do prefeito Sergio Ribeiro
(PT), que prometeu, na campanha eleitoral, que este caso poderia ser resolvido
quando ele assumisse a gestão da Prefeitura.
O prefeito Ribeiro explicou
que desapropriou o terreno em 2009 por decreto, e hoje ele só poderá ser
utilizado para construção de moradias populares. No entanto, segundo ele, a
Prefeitura não consegue pagar os 6 milhões de reais estipulados como valor de
2011 do local. “Carapicuíba tem o menor orçamento per capta e ao mesmo tempo a
terceira maior densidade demográfica do estado”, argumenta.
O petista, no entanto,
demonstrou otimismo nas tratativas para a construção de casas do programa Minha
Casa Minha Vida do governo federal em conjunto com o programa Casa Paulista, do
governo estadual. Durante a construção das 1080 unidades previstas no projeto,
o prefeito garante que a cidade abrigaria os moradores em terrenos provisórios.
Perguntado sobre a
reintegração de posse, Ribeiro disse que “se ela for cumprida no dia 6, aí sim
temos um grande imbróglio. Então não posso assegurar nada. Demos passos firmes
e seguros, mas só vamos ter certeza do acordo no dia em que depositarem o
dinheiro para compra do terreno”.
Já Tião, sobre a
possibilidade das forças policiais retirarem as famílias do local, se coloca em
silêncio um instante pra depois falar. “Nem casa eu procurei ainda. As famílias
não conseguem nem alugar casas, não tem condições. A renda é muito baixa, o
aluguel é alto. As pessoas que têm muitos filhos não conseguem empregos”,
responde, encerrando o assunto.
Savoy
A CPI do IPTU, apesar de
concluir que a empresa faz parte da lista dos maiores devedores, não conseguiu
ser elemento suficiente para que a empresa Savoy pagasse definitivamente suas
dívidas. Dono e administrador de grandes terrenos na grande São Paulo, no
centro da cidade – alguns alugados pela Prefeitura de Kassab – e em regiões
valorizadas como a Avenida Paulista - local de sua sede - o grupo questiona as
suas dívidas na Justiça há mais de dez anos.
Em 2010 o grupo devia cerca
de 56,8 milhões de reais, boa parte por conta dos shoppings da qual é
proprietário. A empresa pagou este valor como forma de continuar suas
atividades sem ficar como devedora. Mas quer reaver isso na justiça. Na visão
da Savoy, depois da própria CPI os valores do IPTU passaram a ser lançados com
menos erros. Otávio Caetano, assessor jurídico da empresa, falou que eles
vencem a maioria dos processos e disse com risos que “a Savoy pode até estar na
lista de devedores, mas bem longe do primeiro lugar”.
Em Carapicuíba, segundo o
próprio prefeito da cidade, a empresa também deve impostos. E também questiona
os valores, justamente do terreno em disputa. Ao colocar que a Savoy sempre
teve aberta para as tentativas de negociação, Caetano se solidariza com as
limitações financeiras da prefeitura. E joga pros moradores o problema do não
pagamento de impostos. “O pessoal que tá lá usa serviço de saúde, educação, etc.
– às vezes até mais do que o normal pela falta de saneamento básico - mas não
paga impostos”.
O assessor da Savoy vê
pouca chance da verba federal vir pois a cidade não deve cumprir determinados
pré-requisitos. E contou a sua versão da história da Favela do Savoy. Em 2005,
numa das três tentativas de despejo que foi adiado, havia menos de 100 famílias
cadastradas pela polícia e “o problema é que quando você suspende [o despejo]
dá mais força aos invasores e muitos se encorajaram para também entrar no
terreno”. Ele disse nem saber o número atual de moradores no local.
“Nossa empresa tem uma
experiência de controle de patrimônio muito rígido”, diz Otávio. Ele contou, na
tentativa de mostrar em cifras a impossibilidade de a empresa cancelar o
despejo, que uma operação deste porte custa de 500 a 600 mil reais. “Essa
invasão é diferente do Pinheirinho. O pessoal sabe que a ordem judicial é de
reintegração. A empresa se dedicou para resolver por todos os meios, mas chega
um momento que a solução é a lei, e a lei é a reintegração de posse”.
Enquanto os moradores
esperam para saber seu destino, a empresa se esforça, em reuniões com a
polícia, para efetivar mais uma vitória do “direito à propriedade privada”
sobre o “direito à moradia”.


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